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BELEZA TRISTE

 

NALDOVELHO

 

Como pode um poema ser belo

e ainda assim ser triste?

Existirá a beleza triste?

Confesse que no entardecer

rola um quê de tristeza,

bate uma nostalgia,

coisa que não se consegue explicar.

E a lágrima no rosto da mulher amada?

Muito triste!

Mas ainda assim, reside ali uma beleza

que por mais que sejamos fortes,

homem nenhum resiste!

E o olhar desconsolado de um filho,

ainda bem criança, ao se despedir, manhã cedo,

quando você vai trabalhar?

Alguém resiste?

Madrugada deserta com noite de lua cheia...

Melhor nem comentar!

O som das águas do mar a acariciar a areia,

praia deserta, tardes de inverno, chuva fina e macia...

Consegue se situar ?

Música cigana, visceral e profana,

um tango arrastado e insano,

um chorão com Zé da Velha ao trombone

e o Paulo Moura a nos atormentar...

Vocês precisam escutar!

É beleza triste existe...

E é disto que o poeta costuma se alimentar.

::Postado por Má Oliveira às 21h33
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NEM SEMPRE...

 

NALDOVELHO

 

Nem sempre poesia, muitas vezes heresia,

enredo que não pode ser desfeito,

tramas, teias, dramas, grito espremido no peito,

histórias que o tempo fez questão de preservar.

 

Nem sempre são rosas, muitas vezes espinhos,

outras vezes são cortes, fraturas, entorses,

sangue coagulado, cicatrizes que ainda doem,

feridas que o tempo não foi capaz de curar.

 

Nem sempre fragrâncias, muitas vezes odores,

coisas cheirando a mofo, amareladas, apodrecidas,

resto de comida esquecida no forno,

coisas que o tempo não deu conta de dissipar.

 

Nem sempre vitórias, muitas vezes derrotas,

descaminhos, estranhos, sem volta,

andar desequilibrado pela beira do abismo,

escolhas que o tempo deixou você tomar.

 

Nem sempre o poeta que existe em mim agüenta,

muitas vezes ele se ausenta, viaja nas funduras,

macera dores, nostalgias, amarguras

e depois de algum tempo voltar a sonhar.

::Postado por Má Oliveira às 21h33
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AO ESCREVER POEMAS

NALDOVELHO

 

Tenho a mão pesada ao escrever poemas,

Abro, no papel, profundos sulcos, tipo, leito de um rio,

por onde navegam palavras, pensamentos, histórias,

coisas colhidas nas trilhas desta vida.

 

Não acaricio as palavras, espremo-as,

até ter delas seu sumo, seus significados.

Uso cores agressivas, por vezes exuberantes,

quando tento passar uma mensagem.

 

Quando falo de saudade prefiro o cinza,

nostalgia navega em branco e preto

e a revolta em águas barrentas, sempre!

Estou mais para a realidade, a vida me fez assim!

 

Tenho a mão pesada aos escrever poemas,

machuco o papel, até perceber que ali existe

sangue, suor, saliva, sentimento,

não sei escrever sem expor feridas.

 

Parir versos é remexer nas entranhas,

é cutucar cicatrizes, fazê-las ardidas,

só assim o poema sobrevive

e eu consigo exorcizar minha dor.

::Postado por Má Oliveira às 21h32
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RUA DAS PROFESSORINHAS 
NALDOVELHO

As mulheres daquela rua...
Dizia o pai, professorinhas!
Ensinavam o b – a = ba,
o dabliou, o ipisilone.

Tinha uma mais novinha
a quem fiz juras de amor.
E ela dizia, assim, baixinho:
eu sou o mel de um beija-flor.

As mulheres daquela rua,
ainda as guardo na memória,
tão bonitas, tão morenas,
tão sozinhas, tão aflitas.
Lembro a ordem de despejo.
Nunca mais vi Maria Rita!


Hoje a rua é de passagem
e as pessoas que transitam
não percebem, nem se importam,
casas frias e vazias.

Ainda guardo o seu cheiro
e a maciez dos seus cabelos.
Nunca mais fui bom aluno,
nem brinquei de beija-flor.
 
As mulheres daquela rua...
Dizia o pai: professorinhas!
Ensinaram muitas coisas
a um aprendiz de amor e dor. 

::Postado por Má Oliveira às 21h31
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PENÚLTIMA CASA A DIREITA, DO LADO DO BAR SOLIDÃO.

 NALDOVELHO

 

Casa branca, assobradada, muro de pedras, gradeado,

penúltima casa, segundo quarteirão,

lado direito, sentido de quem desce.

Na janela, meninas bonitas sorriem pra mim.

 

Águas, riachos, quintais, frutas tenras,

manga rosa carnuda e gostosa, jambo, sapoti,

peitos, algumas pêras, alguns melões!

Colos encharcados, coxas quentes,

cerejas presas entre as dentes,

morangos molhados entre as pernas,

suor, pele, e um tipo de orvalho, aquele cheiro...

cabelos, pêlos, fiapos, que diacho!

Fiquei todo lambuzado, baba de moça e caqui.

 

Amanheço sem alarde, meio bêbado, meio louco...

O poeta gosta de se atolar até o pescoço!

Ou então, de ser seduzido por canto doído de sereia,

de sentir presas cravadas em suas veias

e unhas lascadas, espetadas em suas costas.  

Mania de tecer teias, alimento de aranha.

O poeta gosta de areia movediça

 

Na esquina, encruzilhada, bar aberto,

manhã cedo, café bem quente, chega de aguardente!

Casa ao lado, muro de pedras, gradeado,

já não correm águas de um riacho,

e as meninas dormem um sono justo,

cadeado no portão, cães ferozes de vigília.

Rua das Professorinhas, número cinqüenta e quatro,

penúltima casa, à direita, ao lado do Bar Solidão.   

::Postado por Má Oliveira às 21h28
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A MULHER QUE EU NÃO MEREÇO

 

NALDOVELHO

 

A mulher que eu não mereço

tem os olhos verdes, plenos 

e nos lábios grossos tenros

um sorriso abusado,

encharcado de veneno.

 

A mulher que eu não mereço

traz nas mãos muitos poemas,

rimas loucas e obscenas

que inquietas e urgentes,

assediam e assanham.

 

A mulher que eu não mereço

tem um jeito de menina,

um andar que alucina

e intumesce-me as entranhas

quando ouso o seu apreço.

 

A mulher que eu não mereço

tem a voz enrouquecida,

em sussurros me alicia

e entorpece as minhas pernas,

com que pernas hei de fugir?

 

A mulher que eu não mereço

tem o canto das sereias,

tem a luz da lua cheia

e seduz tecendo teias,

coisa igual eu nunca vi!

 

A mulher que eu não mereço

tem um trato com a magia,

faz feitiços noite e dia,

traz no corpo muitas prendas

e me chama de aprendiz. 

::Postado por Má Oliveira às 21h27
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POEMA QUE NÃO PEDIU PRA NASCER!
NaldoVelho


Madrugada nublada
de uma noite mal dormida,
na realidade não dormida,
e a minha poesia, presa entre os dedos.

Aos poucos, ainda meio tonto,
meio troncho, meio qualquer coisa,
tipo barro, quase tijolo,
meio poeta, meio escombros.

O poema a que me obrigo,
tem um quê de áspero, corrosivo.
As lágrimas brotam doídas,
palavras duras, versos em carne viva.

Agora, seis e dezenove!
O sol nasceu e nem pediu licença.
Manhã cinzenta de novembro,
nuvens insolentes pelo ar.

Seis e trinta e cinco!
Um café bem quente e, eu percebo:
as rosas no vaso murcharam.
Ao fundo, Fátima Guedes, lembra você.

::Postado por Má Oliveira às 21h26
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BUENA VISTA SOCIAL CLUB

 

NALDOVELHO

 

Passaram-se os anos povoados de enganos,

só ficou um outubro lá dentro de mim.

Os cabelos tão brancos, as rugas no rosto,

os olhos maduros colhidos sem pressa

e as mãos calejadas despejam poemas,

doloridas as cordas do meu violão.

As telas que eu pinto retratam meus sonhos

por vales, marinas, silenciosas paisagens,

solitárias escolhas, caminhos sem fim.

Já faz tanto tempo e eu ainda choro,

lágrimas discretas, repletas, secretas,

primavera lá fora, outono aqui dentro,

janelas e portas permanecem entreabertas.

Passaram-se os anos, inquietos, confessos,

o lirismo é a maneira de mostrar que te amo

em melodias que insistem em dizer eu te quero.

Compassos medidos revelam saudades,

num tango, num choro e até num cubano,

um daqueles boleros contundentes profanos,

Compay Segundo entendia o que digo,

Buena Vista Social Club não me deixa mentir.

 

::Postado por Má Oliveira às 21h21
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QUE SEGREDOS ESCONDEM OS TEUS OLHOS?

DEDICADO A RIVKAH COHEN

NALDOVELHO

 

Que segredos escondem os teus olhos?

Por quanta dor esta lágrima escorre furtiva,

apesar do sorriso em teus lábios?

Quantas coisas guardadas, experiência, ensinamentos...

Quantas coisas não reveladas, aprisionadas em teus sentimentos?

Sei não!

Só sei que este ar de mistério, misto de magia e encantamento,

faz do semblante que hoje eu pressinto

a mais pura poesia que se possa ter.

Por que não revelar teus mistérios?

Quando uma, certa, tristeza transparece, por que não expressá-la bem depressa?

Quem sabe Deus em sua imensa misericórdia,

não possa estender-te a mão preciosa e abençoar a mulher.

Quem sabe a vida não possa fazer com que alguém bata a tua porta,

trazendo notícias dos longes e que sejam notícias benfazejas,

que em breve não sentirás mais saudades,

que os teus logo estarão em teu colo,

agasalhados pelo amor que te devora

e ao mesmo tempo te alimenta e te dá prazer.

Quem sabe, então a guerreira, possa ser a primeira

a levantar em teu povo a bandeira do que hoje já cultuas e sente?

Que a compreensão é a moeda primeira

que permitirá ao mundo a ascensão.

Queria ver a paz em teus olhos, queria que o sorriso que eu vejo em teu rosto

contaminasse toda esta gente que guerreia

e esquece que somos todos passageiros

em busca de nossa evolução.

::Postado por Má Oliveira às 21h18
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