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HERANÇA
NALDOVELHO
Vou deixar de herança
o silêncio dos meus versos
e mesmo aqueles que já foram escritos
desaparecerão por completo
Vou deixar um violão
sufocado pela opressão
e cantigas que só eu sei
caladas lá dentro de mim
Se perguntarem o porquê?
Digam que por clausura
o poeta calou sua loucura
e não mais ousou seus poemas.
Vou deixar também telas brancas
de imagens que eu nunca pintei,
matizes ausentes, omissos
por lágrimas que eu não chorei.
Vou deixar portas fechadas,
gavetas vazias trancadas,
segredos não revelados,
histórias que eu não contei
Vou deixar uma lacuna imensa
de sementes não germinadas,
de terra árida e descrente
dos sonhos que um dia eu sonhei.
NADA MUDOU POR AQUI NALDOVELHO Por aqui, imagens distorcidas, lágrimas que escorrem corrosivas e um violoncelo ao fundo a compor tristemente o cenário. Não há nada de novo nas horas, nada que se diga nos consola e o vento que varre as entranhas ainda expõe no homem sua sanha. Tambores martirizam os ouvidos, despedaçam os sentidos e um cheiro azedo e repulsivo, mistura de corpos retorcidos, num banho de sangue que se renova, a cada dia, e o mundo chora. Um Teu anjo ao fundo nos lamenta. Muçulmanos, cristãos e judeus, budistas e até empedernidos ateus, todos passageiros de um mesmo barco, todos filhos de um mesmo Deus. Uma jovem senhora a tudo assiste, ora ao Pai, clemência para os seus filhos, e diz que assim lhe ensinou um outro Filho, "Perdoa-os Pai! Eles não sabem o que fazem" E não há nada de novo nas horas, nada que se diga nos consola e o vento que varre esta terra atiça o fogo, espalha a chama, dissemina a guerra. Um bando de pássaros sombrios, embevecidos com a cena, na espera... - Quem sabe aqueles Terapeutas que socorrem, possam esquecer fragmentos desta gente? Um bando de anjos, em revoada, trazem mais, dilacerados corpos, tantas almas, tantos ais. Desta feita, um outro povo, europeus. E mais obreiros se apresentam ao socorro... Não há nada de novo nas horas, tudo é hoje, como era antes. Até o fato de terem Te crucificado novamente, e desta feita um que se diz cristão, na tentativa de apagar de nossas mentes todo o ensinamento que deixastes. Nada mudou por aqui!
Dias sombrios, enlameados, visguentos.
A lâmina afiada nos expondo as entranhas,
dantesca é a visão de um corpo por dentro.
A vida mutilada por forças tamanhas
e um grito de dor arranha os ouvidos.
O medo estampado num rosto ferido,
estranho concerto, sinfonia do caos.
O momento presente espremido em meus braços,
misturado ao sangue de um infeliz mensageiro,
imagem contorcida de concreto e aço
e uma criança a implorar pelo seio da mãe.
Um anjo assiste a tragédia que existe,
no fanático que colérico esbraveja e insiste
em dizer que a chama depura e renova
e que ao mártir será reservado a companhia de Deus.
Quem foi que abriu os portões do inferno?
Quem foi que soltou o cão raivoso?
E a lâmina afiada prossegue nervosa
a expor as entranhas de um homem sincero
e de um inocente palhaço que padece em meus braços.
Quem se atreverá a escrever num poema
um epitáfio voraz que dê crédito ao homem
pela libertação do tinhoso?
Quem sabe o que a Misericórdia de Deus
possa nos reservar?
Longa é a estrada do ranger de dentes,
centil por centil Ele nos há de cobrar.
Ainda bem que um outro anjo se martirizou no esforço
de tentar com os seus atos o caminho da Paz
ao ousar um poema que traduzisse o desgosto
daqueles que ainda crêem no que o amor possa dar.
Longa será a seara de um dos Homens do Caminho
que no dia de hoje retornou ao seu Lar.
PRECISO QUEBRAR O SILÊNCIO NALDOVELHO Preciso quebrar o silêncio, libertar o verbo, faz tempo, aprisionado em mim. Desentranhar sentimentos, materializar substantivos, enfatizar adjetivos, construir uma oração onde o tempo seja o eterno recomeçar. Preciso quebrar correntes, revelar segredos, atirar pela janela todos os meus guardados, móveis, tapeçarias, utensílios, quadros, deixar a casa vazia, inclusive de espelhos... Preciso me reconstruir por inteiro. Preciso telefonar, urgentemente, para aquele amigo que se fez ausente. Preciso saber onde errei e se ainda há tempo, e se não errei: preciso saber aceitar seu silêncio. Preciso abrir portas e janelas, deixar o vento varrer toda a casa, e que os pássaros invadam a sala, preciso alimentá-los, principalmente de amor. Preciso me apaixonar outra vez, reler tuas cartas, escrever outras, dizer que te amo, e ainda quê, há tanto tempo, ao meu lado, te abraçar com ternura, tratar de ti com cuidado. Preciso cuidar melhor do meu jardim, regar na medida certa, flores e folhagens, podar alguns galhos secos, retirar ervas daninhas, partes amareladas, apodrecidas. Preciso do abraço amigo, dos olhos nos olhos sem máscaras, da palavra que exorcize o medo de falar daquilo que gosto, e ainda assim, deixar bem claro que respeito, quem prefira de um outro jeito e compreendo a vida que têm para viver. Preciso caminhar por este mundo, respirar o ar que ainda posso, rever lugares, pessoas, cidades, varar madrugadas desertas, saborear frutas colhidas sem pressa, curtir o som das águas de um rio a lapidar pedras, margens, caminhos, sentir o cheiro da chuva, das ervas escolhidas, remédios. Preciso rever lua cheia e que não seja contaminada pelas luzes que vêm da cidade, e ao amanhecer forasteiro num lugar distante de tudo, entender que a vida podia ser diferente daquela que eu escolhi pra viver. Preciso acreditar que ainda existem muitas vidas a serem vividas e muitos outros lugares por onde eu possa me conhecer. Preciso caminhar pela praia, sentir a areia entre os dedos, colher pedrinhas, conchinhas, reencontrar aquela sereia, mergulhar com ela nas águas, pedir a benção madrinha! Licença, pro teu filho, vim te visitar. Preciso morrer daqui a algum tempo, e que seja uma morte sem dor. Que eu encerre como se fosse um poema, escrito por urgências de vida, por inquietudes estranhas, latentes, e eu fiz o melhor que pude! Fui um poeta, ainda que tardio, da linguagem da minha gente; pois sou caboclo, mestiço, cafuzo, visceralmente confuso, sem medidas métricas ou rimas, confessadamente insano pelo muito que semeei. Preciso comer certas sementes, deixar que elas germinem e, no tempo certo, floresçam livremente lá dentro de mim. Que eu encerre como se fosse um poema, escrito por urgências de vida, por inquietudes estranhas, latentes, e eu fiz o melhor que pude! Fui um poeta, ainda que tardio, da linguagem da minha gente; pois sou caboclo, mestiço, cafuzo, visceralmente confuso, sem medidas métricas ou rimas, confessadamente insano pelo muito que semeei. Preciso comer certas sementes, deixar que elas germinem e, no tempo certo, floresçam livremente lá dentro de mim.